PT tenta aproximação, mas motoristas e entregadores de aplicativos se alinham à direita

Quatro entre dez motoristas e entregadores se identificam como sendo de direita ou extrema direita. Proposta para motorista de app prevê INSS, carga horária e auxílio-maternidade
Em 1980, um novo partido surgia no Brasil e seu manifesto de lançamento proclamava uma proposta ousada: “o PT pretende ser uma real expressão política de todos os explorados pelo sistema capitalista”.
O texto enumerava as categorias profissionais exploradas: operários industriais, assalariados do comércio e dos serviços, funcionários públicos, trabalhadores autônomos, camponeses e trabalhadores rurais.
Guardem: a maioria dos explorados citados no manifesto tinha carteira assinada, 13º salário, férias e previdência garantida.
Motoristas de apps: entenda o projeto e veja argumentos a favor e contra — e qual o caminho até virar lei
Quase meio século depois, e na sua quarta passagem pelo poder federal, o PT tenta dialogar com quem proclama serem os novos explorados do capitalismo: motoristas de aplicativo e entregadores de comida.
Uma turma sem os direitos que tinham aqueles que o partido chamava de explorados na década de 80. O diálogo, portanto, deveria ser bem mais fácil, correto? Totalmente errado!
Como o blog tem afirmado, a grande novidade na política no Brasil é o surgimento de uma parcela significativa de jovens que se declaram de direita. Uma pesquisa encomendada pelas empresas Uber e Ifood e feita pelo Datafolha com motoristas e entregadores revelou que de 4 entre 10 entrevistados se identificam como de direita ou extrema direita. A mesma proporção – 4 entre 10 – se dizem de centro e apenas 2 entre 10 se posicionam como de esquerda.
Portanto, o PT já tem uma encrenca em relação à década de 80: como ser a representação política dos explorados, se eles não simpatizam com as bandeiras da esquerda?
Não para por aí. Na década de 80, o PT falava com os trabalhadores através de sindicatos e movimentos sociais. Justamente canais que não despertam a menor simpatia nos “neo-explorados”. Nada menos que 76% dos entregadores ou motoristas não são sindicalizados e nem pretendem se sindicalizar.
E mais: num ranking de 12 instituições confiáveis/inconfiáveis os sindicatos ocupam a 10º posição. Só ficam na frente de Câmara de Vereadores e partidos políticos, o que denota outra característica desses trabalhadores: a rejeição à tradicional representação política. Os movimentos sociais aparecem melhor colocados que os sindicatos, ocupando a 6º posição.
Tem mais problemas para o PT: a instituição que goza de maior credibilidade é a polícia, para 54% dos motoristas de aplicativo e 46% dos entregadores. Não é preciso lembrar, que no imaginário político brasileiro a direita é pró-polícia e a esquerda é contra a polícia.
No parágrafo acima, o blog afirmou que o PT dos anos 80 dialogava com os explorados através de movimentos sociais e sindicatos. Faltou menção à igreja. Na pesquisa do Datafolha, a igreja é a segunda instituição de maior credibilidade para 43% dos motoristas e entregadores. A questão: a igreja simpática ao PT à época de sua fundação eram basicamente os setores progressistas do catolicismo. Que foram esvaziados no papado de João Paulo II. A pesquisa do Datafolha cita apenas a instituição igreja, sem especifica, mas é sabido que as igrejas, principalmente as evangélicas, hoje não são um canal de comunicação do PT com as massas.
O mundo mudou. O capitalismo não é o mesmo da década de 80, quando existia fábrica e não aplicativos. O PT também mudou. De partido que pregava a substituição do capitalismo pelo socialismo , no exercício do poder mostrou-se social democrata, como explica Celso Rocha de Barros em seu excelente livro “PT, uma história”.
Mas a mudança que melhor precisa ser estudada se deu entre os que o PT chama de explorados. Hoje, eles rejeitam esse rótulo, porque se vêem como seus próprios patrões. E não querem abrir mão de sua autonomia mesmo para ter direitos sociais, como também mostra a pesquisa.
Dizer que o PT não entendeu esse mundo novo é meia verdade. Para explicar o projeto de lei que garante benefícios sociais a motorista de aplicativos, a Secretaria de Comunicação não usa nenhum temo do manifesto de fundação do partido: não há menção há explorados e sequer a trabalhadores. Diz a Secom: “Autonomia com direitos” e “Liberdade com garantias”.
Autonomia significa escolher os próprios horários. Liberdade quer dizer que motoristas e entregadores vão decidir os locais onde vão trabalhar e quais corridas vão escolher. Com isso, dizem que não tem patrão. E quem não tem patrão, não é explorado. Neste mundo, ser “a real expressão política de todos os explorados pelo sistema capitalista”, como queria o PT na década de 80, não significa muita coisa. Neste mundo, o explorado se vê como o capitalista.

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